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Se você chegou aqui tentando encontrar uma receita pronta para vencer seus medos, pare agora mesmo. Aqui tem muito enfrentamento e auto conhecimento, porque é assim que se descobre a força, o tal do empoderamento. EmPODERar é o processo de conquistar a liberdade e o poder sobre o que você QUER fazer. Portanto, vencer medos e receios faz parte dessa caminhada rumo ao PODER que você quer ter sobre você, seu parto, seus sentimentos e emoções.

[MEDO DO PARTO] é um  tema recorrente na minha vida, já que pari duas vezes e também porque sou doula e auxilio muitas mulheres a enfrentarem os seus. Esse assunto absolutamente me fascina e por isso resolvi escrever a respeito. Um dos livros que me inspirou a falar contigo sobre é o Birthing from Within, da maravilhosa parteira Pam England. Infelizmente o título só está disponível em inglês, mas muitos de seus ensinamentos eu vou retransmitir aqui. Há algum tempo, li o relato de parto da Marcela Flueti que me ajudou a enxergar esse assunto de forma mais cristalina. Assim foi nascendo esse texto, de um longo trabalho de parto e muita reflexão. Espero que você curta e que te ajude na sua jornada. Vamos juntas?

O propósito do medo

Em primeiro lugar, é importante reconhecer que o medo e as preocupações na gravidez são normais e universais. O medo varia em intensidade e é um estado natural de proteção que nos leva a escapar de perigos. Podemos notar seus efeitos em nossos corpos: coração bate mais forte e mais rápido, a  respiração fica mais rápida e irregular, a boca seca, os músculos contraem-se, as palmas ficam frias e suadas, etc. Os cinco sentidos ficam extremamente alertas. Em casos extremos,  as funções cerebrais ficam temporariamente suspensas, exceto as associadas à causa do medo. Esta corrida de adrenalina é uma resposta fisiológica saudável tendo por propósito a nossa proteção e sobrevivência em face de uma ameaça.

O propósito do medo é nos fazer agir. Não é para nos paralisar. Não reaja em paralisia. Aja! O medo nem sempre é nosso inimigo, simplesmente algo a ser superado. Quando estamos tentando algo novo onde grandes ganhos ou perdas estão em jogo, o medo muitas vezes surge.  A questão então se torna: O que fazemos com ele?  Pode ser um estímulo para agir corretamente, com consciência e foco. Ele pode nos orientar para adaptar, ajustar e agir bem. Diante do desconhecido, portanto, é natural sentir medo. Mas é no desconhecido que habita o incrível. E lembre-se sempre que enfrentar é diferente de eliminar.

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Se preocupar durante a gestação é normal e saudável

Pais expectantes enfrentam muitos temores sobre o futuro nascimento de seu filho. Quão ruim será a dor? Eu serei capaz de lidar com isso? Vou perder o controle? E se der algo errado? Serei incapaz de dar à luz a esse bebê? Os pais podem temer: será que serei bom apoio? Posso lidar com meus sentimentos ao vê-la com dor? Eu serei um bom pai? Este mundo é um lugar seguro para o meu bebê? E se houver algo de errado com o bebê?

É normal ter todos esses medos em uma experiência desconhecida. Especialmente quando é  uma experiência tão importante, que muda a vida.

“Não se preocupe! Seu corpo sabe o que fazer!”

“Não se preocupe! As mulheres têm dado à luz por séculos.”

“Não se preocupe! Mãe e bebê saudáveis é o mais importante.”

Tenho certeza que em algum momento de sua gravidez você ouviu isso de alguém. Talvez uma amiga bem-intencionada ou um membro da família preocupado diga isso como uma maneira de incentivá-la. E às vezes funciona. Outras vezes … não tanto.

Em seu coração, você sabe que essas afirmações são verdadeiras. Talvez até os repita silenciosamente para si mesma como um mantra com a esperança de sufocar alguns de seus medos. Mas você ainda está preocupada.

Algumas pessoas acreditam que explorar suas preocupações ou medos pode torná-los mais prováveis de acontecer. Estamos condicionadas apenas a “pensar positivamente” na esperança de que isso nos ajude a evitar algum evento não desejado. A realidade, no entanto, é que, sufocando os medos, você evita o trabalho duro que precisa ser feito para se preparar para seu bebê.

Preocupação na gravidez é normal, saudável e você pode aprender a lidar com ela de forma eficaz. Gestantes em todo o mundo, em todos os cenários e culturas, são confrontadas com o grande desconhecido que é o parto e se preocupam com a dor, a saúde do bebê, intervenções, etc.  A boa notícia é que o que está causando ansiedade é exatamente o que você pode usar para se tornar mais preparada. Você pode usá-la como um trampolim para entrar no parto com confiança. Ao explorar seus medos invés de evitá-los ou procurar tranquilizar-se de que “tudo ficará bem”, correndo o risco de ficar paralisada quando eles surgem, a preocupação pode ajudá-la a se tornar mais forte!  Você se torna uma participante ativa em sua própria história.

Porque enfrentar seus medos na gestação importa

Nossos corpos são engenhosamente projetados e regulados por hormônios, especialmente durante o parto. Nosso sistema nervoso não consegue discriminar entre os medos imaginários e reais, portanto, em ambos os casos, ele irá estimular uma resposta saudável de “luta ou fuga” e vai produzir adrenalina, que neutraliza o efeito da ocitocina, o hormônio responsável pelas contrações uterinas. Portanto, se seus cenários mentais induzem a medo excessivo, pode ser que você não entre facilmente em trabalho de parto ou se acontecer, suas contrações podem ser inibidas pela liberação de adrenalina e serão, conseqüentemente, muito fracas para parir seu bebê. Por outro lado, se você cultivar uma visão positiva do parto como seguro, pacífico e forte, seu sistema nervoso irá trabalhar com você para ajudar a produzir um estado físico relaxado e eficaz com contrações poderosas.

Efeitos do medo sobre o trabalho de parto:

• Aumento da dor: O medo tende a aumentar a tensão muscular. Quanto mais tensa, mais dor você vai experimentar;
• Possível aumento da freqüência cardíaca, pressão arterial e freqüência respiratória. Estes podem desenvolver-se porque o medo ativa adrenalina, e uma resposta de luta ou fuga.
• Possíveis complicações com o parto: A adrenalina neutraliza o efeito da ocitocina,
hormônios que estimulam as contrações do trabalho de parto, que dilatam o colo e empurram o bebê através do canal. Se o medo bloquear a ocitocina, isso pode levar a uma para de progressão do parto e necessidade de intervenções.

Enfrentando seus medos

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Em Birthing from Within , Pam England usa a metáfora de um tigre faminto espreitando afora para explicar os efeitos do medo sobre o trabalho de parto. Ela diz que não importa se é uma situação verdadeira que tememos, ou apenas nossas próprias fantasias, porque o sistema nervoso autônomo não é capaz de diferenciar entre os “tigres” reais e imaginários.

Uma vez que o sistema nervoso responde a imagens, é importante transformar esses pensamentos em  imagens. Trazer os medos à consciência, onde você pode domar, eliminar, ou mesmo aproveitá-los. Ela recomenda esse exercício durante a gestação para ajudá-la acompanhar e domesticar seus tigres:

1) Anote todas as coisas que você espera não acontecer. Todos seus medos, por mais bobos que pareçam.

2) Use essas perguntas para meditar sobre cada um deles:

• O que você faria se essa preocupação/medo realmente se tornasse realidade?

• O que você  imagina que seu parceiro e/ou cuidador (médico, parteira, doula)  faria/diria?

• O que significaria sobre você como mãe se isso acontecesse?

• Como você enfrentou crises no passado?

• O que  você pode fazer para se preparar para, ou mesmo prevenir, o que você está se preocupando?

• O que o impede de fazer isso?

• Se não há nada que você possa fazer para evitá-lo, como você gostaria de lidar com a situação?

Você vai querer buscar o caminho mais fácil, com respostas confortáveis. Resista à resposta esperada: “não se preocupe”. Uma afirmação vazia assim pode levá-la a evitar o trabalho duro e doloroso que precisa fazer. Enfrente  o que teme!  Algumas de suas preocupações podem ser triviais, mas olhe atentamente para aquelas que você está tentando minimizar ou ignorar. Preste especial atenção às preocupações que criam uma tensão física em seu corpo.

Depois de tudo isso, crie uma imagem de parto envolvendo segurança e força, para que seu sistema nervoso responda, produzindo um estado de relaxamento. Concentre-se nessa imagem nas semanas anteriores ao nascimento. Durante o trabalho de parto, se esses ou outros medos surgirem, compartilhe-os com quem estiver com você – sua doula, acompanhante, médica, parteira.  Essas pessoas podem ajudá-la a a voltar para seu centro e foco.

Os medos mais comuns

• Não ser capaz de suportar a dor
• Não ser capaz de relaxar
• Ser pressionada em relação ao tempo, ou medo de demorar muito
• A pelve não ser grande o suficiente
• Não dilatar
• Falta de privacidade
• Ser julgada por fazer barulho
• Ser separada do bebê
• Ter que lutar para que os desejos/direitos sejam respeitados
• Ter intervenção e não saber se é necessário ou o que fazer.
• Medo de morrer no parto

Aqui eu já falei sobre o medo de fazer cocô no parto.

E pra você, quais são os seus? É sua escolha: enfrentar o correr. Dentre tudo, tenha certeza que se enfrentar sairá disso muito mais forte para vencer os desafios tão duros da maternidade. Aproveite essa viagem de auto conhecimento tão necessária. E… boa hora! <3

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Referências: Birthing From Within, de Pam England & Rob Horowitz, Parterra Press Capítulo 3 : Worry Is the Work of Pregnancy. Capítulo 20 : Even Paper Tigers Can Bite. 

Imagens: Google Images

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