Conheci a Natasha aqui mesmo, através do Blog. Eu sabia que alguma intercorrência havia acontecido no parto dela, mas me sentia repelida a perguntar. Durante minha ida ao Simpósio Internacional de Atenção ao Parto desse ano, em São Paulo, pude almoçar com ela e conhecer-la melhor. Foi então que me apaixonei por ela, pelo Bernardo e por toda sua história. Nesse dia, ela me disse que sonhava com o dia que publicaria seu relato aqui, pois lutou muito por seu parto. Então aqui está! Porque nem todo parto sai como o planejado. E também pra contar que pode ter intercorrência grave! Mas principalmente pra provar que o amor é maior que tudo nessa vida! Natasha, é um honra imensa pra mim, ter seu relato aqui! <3

Relato publicado hoje, em comemoração à saída do Ber do hospital, depois de uma longa internação, de 168 dias. Você é um vencedor, Urso Valente! <3

Para quem quiser acompanhar a história da Natasha e do Bernardo, acesse aqui.


Relato do nascimento do Bernardo

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– Você está pronta?
– A gente nunca está pronta pra uma coisa dessas…
– Mas você sabe quanta dor vai ter que suportar?
– Uma missão alicerçada no amor não dói tanto assim, meu filho.

 

 

É assim que eu acredito que em outro plano, outra dimensão, aceitamos um ao outro como mãe e filho e compreendemos nossa missão juntos. Uma visão metafísica de quem entendeu, através da maternidade, a dimensão das coisas que ultrapassam a compreensão das evidências científicas.

1995. A menina curiosa foi morar na casa que era da avó que deixou pra trás uma edícula cheia de livros e enciclopédias. Barsa, Conhecer 2000, Trópico e muitas outras, mas havia uma preferida. Entre todas as outras destacavam-se os volumes verdes da coleção “Medicina e Saúde”. Ela passava horas com a cabeça enterrada nesses livros, encantada com os nomes das doenças que descobria ali. Epidermólise bolhosa. Fasciíte necrosante. Enfisema pulmonar. Epilepsia. Guardava os nomes e detalhes na ponta da língua, como se desejasse fundir em suas moléculas cada página daquele precioso conhecimento. Mal sabia ela que aquilo era uma preparação para o grande propósito que um dia ela haveria de encontrar…

 

O desejo de engravidar era antigo. Desde que eu reconheci em meu companheiro minha complementariedade, em um cotidiano recheado de amor, carinho e respeito, achei que nossos genes mereciam uma chance de se perpetuar no tempo e no espaço. Nossos anos de convivência até então eram prova de todas as adversidades que conseguimos superar juntos e também de todas as coisas improváveis que nossa parceria podia conquistar. Estamos juntos e prontos pra qualquer parada, inclusive a maternidade/paternidade.

 

2000. Ensino Médio. Problemas de auto estima e auto imagem no auge da efervescência hormonal adolescente. A vida na Escola Técnica Federal era a realização de um sonho e me trouxe os melhores amigos de uma vida inteira, mas também trouxe muita angústia no enfrentamento daquelas questões tão tipicamente adolescentes. Na sala ao lado, separados por uma parede de divisória caindo aos pedaços, estava aquele que um dia seria o amor da minha vida, só que eu não sabia disso. Quando o via passando pelos corredores pensava: “lá vai aquele gordinho bobo sempre acompanhado do japonês piadista”. Estereótipos e julgamentos de quem não soube enxergar com os olhos da alma. Sorte a nossa que o tempo tudo sabe…

Eu torcia muito por uma gravidez surpresa, acidental, mas no fundo sabia que minha cabeça e meu corpo não consentiriam algo do tipo. Comecei a estudar e todas as evidências apontavam o parto normal como soberano em seus benefícios. Nenhuma tecnologia inventada pelo homem poderia superar o caminho que a natureza aprimorou ao longo de milhões de anos de evolução. Marquei consulta com um renomado defensor da humanização do nascimento. Sua produção acadêmica muito me seduziu e eu segui para minha consulta pré-concepcional. Estava ávida por informações científicas, estatísticas objetivas e burocráticas e encontrei muito mais do que isso. Aquele senhor intercalava informações com palavras que deixavam muito clara sua fé na perfeição dos processos da natureza. Foi o primeiro sinal (que na época não entendi) de que eu precisaria olhar além do que os óculos da ciência me permitiam. Enxergar o invisível seria essencial para a jornada vindoura. Ignorante, preparava o corpo e a casa para a concepção, mas a alma já estava prenha e transbordava.

14/09/2007. Primeiro ano na universidade que eu sempre sonhei cursar. Aproveitava a vida como se não houvesse amanhã, envolvida em atividades extracurriculares e festas. Estava embriagada pela sensação de possibilidade que a vida universitária inaugurava (e pelo álcool também). Passando por entre uma multidão em uma festa senti alguém puxando meu braço. Reagi furiosa, pronta pra gritar impropérios quando ouvi: “Oi! Calma, eu te conheço da Federal… sei até o seu nome!”. Duvidei que ele soubesse meu nome, mas ele de fato sabia. A conversa se prolongou e acabamos ficando juntos. Aquela seria a primeira noite do resto de nossas vidas e dali 8 anos depois surgiria o Bernardo como materialização deste predestinado e arrebatador encontro de amor.

 

Detalhes objetivos contemplados (exames médicos perfeitos e um bom convênio médico) era chegada a hora de conceber. Por ter convivido a vida toda com um discurso gordofóbico medicalizante eu desconfiava muito do potencial gerador de vida do meu corpo e achava que teria problemas para engravidar. As tentativas iniciaram em dezembro. Eu engravidei em dezembro.

07/01/2015. Antes de dormir rezei pedindo para ser presenteada com um sonho que aliviasse a angústia que estava sentindo. Dormi e, em sonho, fui passear com minha mãe no antigo quintal da minha avó. Ela indignada questionou minha mãe:
– Poxa, filha, por que você não me contou que a Natasha já estava grávida!?
– Mas ela não está, mãe!
– Está sim! Tanto está que olha só quem veio comemorar conosco…
Olhei para trás e vi meu pai (falecido em 2008) com um largo sorriso orgulhoso. Ele bagunçou meu cabelo e eu acordei atordoada. Não me sentia grávida, mas o sonho havia sido tão real que não conseguia esquecer. Sozinha fui a um laboratório e colhi sangue para que não restassem dúvidas.
O dia passou e à noite, durante a festa de aniversário da minha sogra, resolvi consultar o resultado pela internet, no celular. O número na tela confirmava que eu estava grávida, mas não havia a palavra positivo. Trêmula, pedi que meu marido me acompanhasse até o quarto, onde mostrei a tela do celular.
– Acho que estou grávida…
– Sério!?
– Sim. Confere aí se as unidades de medida são iguais…
– Meu Deus!!!!
Nos abraçamos chorando e espalhamos a novidade para todos os familiares ali presentes.

 

Era hora de começar o pré natal. O médico que acompanhou meus exames pré-concepcionais me recebeu na mesma semana e acolheu minhas angústias. Eu sabia que por ser primigesta havia um risco aumentado de aborto espontâneo no primeiro trimestre e essa possibilidade me atormentava. Mais uma vez, calmo e sereno, ele pediu para que eu confiasse no meu próprio corpo e na perfeição da natureza. Só eles poderiam determinar se aquele produto da concepção era viável ou não. Começava meu primeiro exercício de fé e entrega.

A gravidez seguia sem intercorrências, mas parir com aquele médico não seria possível, a equipe toda não caberia em nosso orçamento. Começamos a procurar alternativas e acabamos encontrando um espaço que nos acolheu com muito amor e paciência, onde somos presentes até hoje. Lá conheci tantas pessoas maravilhosas e recebi tanto amor que não tenho dúvidas que este foi mais um encontro predestinado.

O primeiro trimestre passou e eu não tinha enjoos, náuseas, nem desejos de comidas exóticas. Só havia uma vontade incontrolável de estar na água e eu obedeci a este chamado me matriculando na natação.

Consumia informação com voracidade, mas vivia a angústia da dualidade: o conhecimento que me empoderava era o mesmo que me apavorava. Por ser uma gestante obesa li e ouvi toda sorte de coisas ao longo do pré natal e desconfiava cada vez mais da minha capacidade de criar vida e parir. A equipe acolhia minhas angústias e os exames atestavam que minhas preocupações não tinham fundamento. Eu sei que deveria ter buscado ajuda psicológica naquele momento, mas todos os nossos esforços financeiros estavam centrados em viabilizar uma boa equipe para receber o bebê neste mundo.

A gestação seguia tão tranquila que chegamos a cogitar um parto domiciliar. Inicialmente abracei a ideia, mas por dentro não me sentia segura, algo me angustiava. A combinação bombástica de ansiedade do final da gestação, com todas as minhas angústias e incertezas me causaram um desgaste muito grande e eu comecei a ter picos de pressão alta lá pela 34ª semana. Fiz toda a rotina de exames para descartar pré eclampsia, comecei a tomar uma medicação anti-hipertensiva, fazer sessões de acupuntura e abri mão dos planos de um parto domiciliar para tentar me sentir mais segura. Minha equipe me apoiou incondicionalmente justamente por entender que a mulher deve parir onde se sente mais segura e confortável.

Magicamente a pressão arterial voltou para seus padrões normais e eu pude curtir o final da gestação. Na consulta de 39 semanas e 5 dias a obstetra aferiu minha pressão. Séria, pediu que eu deitasse que logo ela repetiria o procedimento. A frequência cardíaca e a movimentação fetal estavam boas, mas a pressão se mantinha alta. Ela pediu que eu fosse para o pronto socorro do hospital para fazer uma porção de exames, já que a suspeita de pré eclampsia rondava novamente. Além disso eu havia ganho muito peso e existia uma suspeita de diabetes gestacional subdiagnosticado (mesmo que as duas curvas glicêmicas que fiz atestassem o contrário).

Lá fomos eu e meu marido, passar por mais uma maratona de exames. No último deles, o ultrassom, vimos o Bernardo em sua casa aquática e tudo estava muito bem, o médico apenas nos disse para esperarmos um bebê grande, com mais de 4kg. Ao final dessa aventura nossa GO nos encontrou na recepção do hospital e confirmou que não havia nenhuma alteração nos exames que indicasse necessidade de intervenção naquele momento, mas que ela não se sentia segura de prolongar a gestação para além das 40 semanas, que se completariam 2 dias depois.

Alguma coisa dentro de mim pediu que não esperasse mais e ali mesmo pedi para ser internada e iniciar o processo de indução com misoprostol já que o colo do útero estava macio e favorável.

A internação foi demorada porque os funcionários não entendiam o que eu ia fazer. Estava internando para esperar uma cesária? “Não, eu vou induzir”, respondia, só que eles pareciam não entender que raios era uma indução. Pouco depois da meia noite estava no quarto, de banho tomado, com a pressão arterial controlada e recebendo meu primeiro comprimido de misoprostol. Como ele é colocado na vagina eu não podia levantar para ir ao banheiro e aproveitei para dormir e descansar, apesar das técnicas de enfermagem que apareciam de tempos em tempos para fazer o controle dos meus sinais vitais e os do bebê.

No dia seguinte minha médica veio visitar. O colo estava mole e eu tinha 1cm de dilatação. Ela introduziu mais um comprimido e disse que voltaria no começo da noite para me avaliar novamente.

Pouco depois do almoço minha tia e minha mãe vieram me visitar. Queriam me desejar “uma boa hora”, mas além disso sinto que queriam me passar o bastão da maternidade. A responsabilidade de perpetuar a herança simbólica de todos aqueles que vieram antes de nós era minha e ali, naquele momento, elas me “autorizaram” a parir e dar continuidade à nossa descendência. Na hora de abraça-las para nos despedirmos levantei da cama e senti uma água quente escorrendo pelas pernas. Era a bolsa que havia rompido, as 14hs do dia 15/09. Imediatamente comecei a sentir cólicas leves e bem suportáveis e o Daniel avisou a equipe pelo grupo de whatsapp que havíamos criado.

A doula chegou lá pelas 18hs perguntando como estavam as dores. Eu respondi que estava bem administrável, que esperava algo muito pior. Ela riu e disse: “Calma, hoje você vai atualizar suas definições de dor.”.

Recebi mais um comprimido e não podia levantar da cama, só que as dores foram ficando tão intensas que era insuportável permanecer sentada ou deitada. Em dado momento cansei de sentir tanto desconforto, levantei e fui ao banheiro porque sentia uma vontade enorme de fazer cocô. Vi que metade do comprimido havia saído junto com as fezes, mas não importava mais pois as contrações estavam bem ritmadas e a dor já estava em níveis inéditos.

Eu li dezenas de relatos de parto e criei muitas idealizações sobre este momento. Tinha feito uma playlist, esperava massagens com óleos essenciais e achava que poderia passar por tanta dor de maneira muito racional e eloquente. A verdade, e aí jaz o potencial transformador da experiência de parir, é que eu virei bicho. Não tinha palavras, nem pensamentos passando pela minha cabeça, só sentia uma conexão profunda com meu corpo e meu colo do útero. Quando a contração terminava eu conseguia relatar para a doula exatamente o que havia acontecido no meu colo naquele intervalo de dor. Tudo o que eu queria era rebolar ou ficar de cócoras durante aquele tempo mágico em que meu corpo se preparava para abrir passagem para a vida nova que vinha chegando. Eu repelia as mãos que tentavam me tocar, mas sentia a presença amorosa da doula e do meu marido, que assistiam a toda essa transformação.

Lá pelas tantas resolvi ir para debaixo do chuveiro. A água quente em alta pressão caia sobre o meu quadril, trazendo uma sensação de alívio inacreditável. O relaxamento foi tão grande que eu comecei a chorar intensamente. A doula perguntou se eu gostaria de falar sobre o que estava sentindo e eu disse, aos prantos, que tinha muito medo.

– Medo de que? – ela perguntou
– Medo de não dar conta… – respondi soluçando.
– Calma, querida. Ninguém dá conta da maternidade…

Aquela verdade dita com tanta serenidade me acalmou e eu permaneci ali no chuveiro mais um pouco. Quando saí do banheiro encontrei uma das parteiras já no quarto e ela me presenteou com um sorriso sereno e tranquilo. Fiz um cardiotoco por 15 minutos e tudo estava indo muito bem.

Por volta das 22hs chegou a fotógrafa. Quando a vi passando pela porta do quarto tive mais uma crise de choro, pensando como as coisas com que sonhei iam se materializando nesse caminho da chegada do bebê. Até então não sabia como estava a minha dilatação e tinha um pouco de receio de descobrir e me decepcionar. Acabei cedendo a curiosidade e recebi a feliz notícia que já estava com 7cm!

Decidimos descer para a sala de delivery e eu já estava enlouquecendo de dor. A enfermeira do hospital apareceu com uma camisola e uma cadeira de rodas, dizendo que eu precisava me vestir e sentar ali para ir para o delivery. Eu sentia muita dor e dizia pra ela que queria ir pelada e andando até a sala de parto, mas não havia negociação. Cedi pensando na banheira que me esperava ao final dessa jornada de tortura sobre rodas.

Chegando lá todos foram se paramentar enquanto a doula permaneceu comigo, tentando encher a banheira. A dor era insustentável e nenhuma posição ou movimento conseguia trazer alívio.

Poucos minutos depois todos retornaram e eu vi chegar minha segunda parteira. Em partos hospitalares geralmente apenas uma enfermeira obstetra compõe a equipe, mas meu pré natal havia me aproximado tanto daquelas duas mulheres maravilhosas que ambas quiseram assistir meu parto.

Logo em seguida a GO chegou. Eu estava em quatro apoios na banheira e as contrações haviam mudado de padrão, junto com a dor vinha um desejo enorme de fazer força. Na banheira mesmo foi feito o exame de toque que constatou que eu já estava plenamente dilatada.

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Toda a consciência corporal e tranquilidade que eu tive até então desapareceram. Eu tinha a sensação de não saber onde o bebê estava dentro de mim e não entendia o que aquela força sobrenatural estava empurrando.

Com a entrada no expulsivo as auscultas ficaram mais frequentes e eu mal saia da contração e já queria saber se as coisas estavam bem. Essa tentativa de racionalizar o processo atrapalhou muito a evolução da saída do bebê, mas só hoje eu entendo isso.

Gritei muito, como se não houvesse ninguém ao meu lado. Sinto que junto com a progressão do bebê no canal vaginal vinham também 29 anos de sentimentos represados de um corpo que fora tão subjugado e agora reclamava sua condição de protagonista de volta.

Em um dado momento uma das parteiras disse: “Ele á está perto. Coloque a mão no seu canal vaginal e sinta ele chegando.”. Ali, na ponta dos meus dedos, estava aquela coisinha cabeluda que mudaria para sempre minha vida.

Como não estávamos fazendo progresso na banheira decidimos tentar outra posição. As parteiras fizeram um pouco de rebozo nos meus quadris e eu fui para a banqueta tentar a posição de cócoras. Eu ainda gritava muito e elas pediram que eu tentasse “gritar com a vagina” para tentar fazer a contração ficar mais longa e efetiva. Durante uma ausculta houve uma desaceleração dos batimentos cardíacos fetais e a equipe ficou tensa. Minha doula sugeriu que eu tentasse deitar em posição ginecológica porque isso corrigiria minha curvatura lombar a ajudaria o bebê a progredir. Ao mesmo tempo a GO me colocou no soro com ocitocina para garantir contrações mais efetivas e prolongadas.

Deitada eu reencontrei o bebê dentro de mim. Na primeira contração ele coroou. Na segunda nasceu a cabeça. Na terceira contração, às 2h13min do dia 16/09/2015 ele veio, todo molinho, para minha barriga.

Era um menino enorme e no cordão que nos unia havia um nó verdadeiro. Um nó que mudaria tudo pra sempre. O nó entre nós.

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O neonatologista tentou prestar atendimento com ele ali mesmo, mas vendo a falta de reação pediu que o cordão fosse clampeado. Por sorte a parteira, antecipando essa possibilidade, havia ordenhado bastante sangue para o Bernardo e ele seguiu para o berço aquecido ao meu lado onde teve as vias aéreas aspiradas e recebeu ventilação manual com ambu. Foram momentos de muita tensão até que ele respirasse sozinho e chorasse.

Eu estava entorpecida pelos hormônios do parto e me sentia flutuando no cosmos. Meu marido desesperado chorava e eu repetia: “Calma, vai ficar tudo bem.”. Não sei de onde veio tanta calma e serenidade, só sei que daquele momento até hoje, uma fé inabalável fez morada dentro de mim.

nat-8Conversava com o Bernardo, dizendo como ele tinha sido desejado e esperado. Como até aqueles que já se foram ansiavam pela sua chegada. Como o mundo é cheio de coisas lindas de se ver e se viver.

Ele reagiu. Seu apgar de primeiro minuto foi 3 e de quinto minuto foi 7. Veio para o meu colo e eu chorei porque sabia que ali me estava sendo confiada uma benção, um tesouro. Ficamos ai eu, o Daniel e o Bernardo nos namorando, inebriados por testemunhar o milagre da vida. Minha sogra conseguiu burlar a segurança e entrou na sala de parto para conhecer o primeiro neto. O clima era de muito amor e felicidade enquanto contemplávamos aquela criaturinha.


nat-4Minha embriaguez pós parto foi tão grande que eu tenho memórias difusas sobre o parto da placenta. Não senti nenhuma dor e quando me dei conta uma das parteiras a segurava na minha frente. Aproveitei para reverencia-la e agradece-la por nutrir minha cria dentro do útero. Pouco depois a GO avisou que eu havia sofrido uma pequena laceração e que ela daria alguns pontos para suturar. Novamente não senti dor alguma e só senti realmente a laceração muitas horas após o parto.


nat-6O Bernardo foi pesado: 4.410kg. Como havia nascido muito grande seguiu para a UTI Neonatal para fazer controle de glicemia, com expectativa de ser liberado para o quarto naquela mesma tarde. O neonatologista foi com ele e lá permaneceu até o início da manhã. Ele estava bem e nós estávamos ansiosos pela liberação dele, para que pudéssemos ficar juntinhos novamente. Na hora do almoço fui visita-lo na UTI e vi aquele meninão chorando a plenos pulmões e brigando com a incubadora, que era pequena demais para seus gigantes 55cm.

Voltei para o quarto para descansar, meu corpo doía demais da maratona do parto. Depois de 16 horas de nascido, naquela primeira tarde de sua vida, Bernardo vez seis apneias e convulsionou, consequência da privação de oxigênio que sofreu durante o parto, provavelmente pela compressão do nó verdadeiro no cordão durante sua passagem pelo canal vaginal.

Ele foi intubado, sedado e colocado em protocolo de hipotermia, um procedimento padrão que resfria o corpo e desacelera o metabolismo de bebês que sofreram anóxia, na tentativa de proteger o cérebro de outros danos.

Eu, em desesperada vigília ao lado daquele berço gelado, fiz uma promessa para o meu filho: seja qual fosse o desfecho daquela inicial privação de oxigênio eu contaria nossa história e não esconderia de ninguém as alegrias e tristezas dos desfechos desfavoráveis. Só agora, perto do primeiro aniversário dele, é que consegui escrever meu relato de parto. Foi um primeiro ano MUITO difícil, com a descoberta das lesões cerebrais que levaram a uma epilepsia refratária e a necessidade de internações hospitalares prolongadas.

Em trinta anos de vida jamais havia vivido algo parecido com este primeiro ano. Foi um tempo de muita dor, mas também de muito aprendizado. Conheci pessoas maravilhosas, ouvi histórias inacreditáveis e vivi a solidão e a invisibilidade da maternidade de uma criança extraordinária.

Testemunhei mortes, mas também testemunhei histórias de superação quase inacreditáveis! Assisti impotente meu filho passar por inúmeros procedimentos médicos dolorosos, mas também o vi crescer e se desenvolver mesmo com todas suas limitações. Nunca tive o coração tão cheio de gratidão como agora. A maternidade tem sido a experiência mais transformadora da minha vida e o sinto que o parto e o Bernardo inauguraram uma nova fase de minha vida, onde todas as coisas empoeiradas pelo cotidiano finalmente encontraram um sentido.

Hoje, prestes a completar um ano, meu filho luta contra uma epilepsia refratária que compromete muito suas possibilidades de desenvolvimento neuropsicomotor. Este relato é um testemunho de fé, de luta, de esperança e um manifesto para que as histórias de final não tão feliz sejam contadas. Foi de um desfecho não favorável, da adversidade, que eu ingressei no universo da maternidade e é deste lugar que quero falar. Nas poltronas desconfortáveis, nos corredores hospitalares, nas clínicas de fisioterapia ou na angústia de assistir nossos filhos em coma: nós existimos! Nós resistimos! E seguimos criando mil e uma alternativas para adaptar nossa maternagem aos monitores, fios, equipamentos e limitações físicas de nossos filhos. Porque apesar de tanta dor, há muita alegria e ela arrebata meu coração cada vez que meu filho sorri para mim. Construímos dia a dia, pouco a pouco, nosso próprio (e alternativo) final feliz.

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Fotos de: Line Sena e Michele Pampanin

 

 

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