gentle c-section

Você planeja, tem sonhos, se prepara para um parto normal, mas… e se alguma coisa fugir do seu controle? Algumas situações são verdadeiras indicações de cesárea, seja dentro de trabalho de parto ou fora (veja aqui!). Cesárea é uma cirurgia maravilhosa, que salva vidas quando bem indicada. Sabemos disso! Como planejar para que ela seja feita da maneira mais respeitosa possível?

Uma gestante que acompanho está passando por isso nesse momento. A bebê está em posição transversa e ela sem muitas opções.

Uma outra amiga me descreveu como foi sua cesárea, depois de passar pela cirurgia intra-parto.

Minha operação foi um horror! Achei que ia morrer ou ficar aleijada. Sofri muito pra tomar a anestesia, fui tão maltratada, tomei muito esporro. Senti choques na perna. A enfermeira disse que ia me largar e eu ia cair no chão, porque foi assim: ia tomar a anestesia sentada, pra começar não conseguia responder as perguntas que o anestesista fazia.Ele tava irritado. Sério! As dores eram fortes, de 2 em 2 minutos, acho que ele não entendeu isso ou não respeitava mesmo. Me destratou. Daí a anestesia sentada… um horror! Como não se contorcer com dor? Como???

A enfermeira disse que eu tinha que relaxar os ombros, eu tentei, juro! Até pedi desculpas! Ela tava muito puta, ele com agulha dentro de mim, ela segurando meus ombros, aliás, empurrando meus ombros pra baixo, até que ela se enfezou e disse: “Olha só… você vai cair porque eu não vou te segurar. Pára de se empinar, não joga o corpo pra frente. Você não pode se mexer!”. Só rindo, né?

Eu com dor, com medo, triste, desesperada e mais essa??? Eu mereço! Tudo deu errado! Conseguiram dar a anestesia… demorou muito, uma loucura. Eles me jogaram deitada… não tô dramatizando não, tá? Jogaram!!!

“Anda, anda, anda, senão daqui a pouco essa criança vai nascer pelo pé.” – disseram. 

Daí começou tudo e meu esposo lá fora. Só entraria depois que tirassem ela, eu amarrada, ela nasceu. Ele entrou, perguntei por ela, escutei um “caaalma!!!”. Ela demorou um pouquinho pra chorar. Eles falavam baixinho pra eu não escutar. Foi aterrorizante. Eu a vi… e tchau. O pai também teve que sair logo. Demorou muito pra me fecharem:

–  Aconteceu algo? – eu perguntei

–  Sim. Ainda não acabou. – uma das médicas disse. 

Demorou muito pra terminar comigo. Estranhei. Quase sufoquei. Tenho rinite, meu rosto e garganta coçavam muito.Deu desespero. Disse: “pelo amor de Deus, me solta pra eu me coçar?”. Eles não ouviam. Uma coisa horrível. Até nisso tinha que dar errado? Uma sensação de impotência, sufocava, queria tossir… horrível! Pedi SOCORRO! o anestesista

– Que foi? Quer vomitar? – disse o anestesista.

– Não, quero coçar minha garganta. Estou sufocando mesmo. Mesmo! Como faço?

– Coça, ué! – ele disse. 

Por fim, a médica (diz meu esposo que eram duas obstetras, mulheres, as duas) veio me dizer que demorou porque tiveram muito trabalho com os pontos no útero, que fizeram algo errado na primeira cirurgia, algo como corte errado… eu não estava bem, não sei direito até hoje e que eu quase perdi meu útero. Assim, sem nenhuma sensibilidade, na minha cara, naquele momento delicado. Mas…. (ahhh, ainda bem que tem o “MAS”), estava tudo bem!

Agora tenho que ouvir que tenho que agradecer porque minha filha nasceu com saúde. Não sou ingrata, ainda mais com Deus. Nunca fui! Mas todo o desenrolar da história foi punk. Graças a Ele mesmo, graças a Deus, e só… é que minha filha está aqui hoje, linda.”

Não precisa ser sempre assim, né? Isso também é violência obstétrica e precisa ser denunciada e combatida.

Abaixo, leia um texto da obstetra Betina Bittar, que lista os ítens para um plano de parto para uma cesárea, que pode ser muito respeitosa, sim!

barbara-c-birth-blog0171Num parto natural a mulher é a protagonista do nascimento e conduz o seu filho para o mundo de forma consciente. Quem “faz” o parto é a própria gestante, ela se basta. A vivência do trabalho de parto traz à mulher uma integridade emocional para que possa zelar pela sua cria.Quando a cesariana é necessária, a ajuda da equipa médica é imprescindível, mas não por isso, a gestante deverá entrar no centro cirúrgico com uma postura completamente passiva e derrotada. Deverá entrar consciente da sua situação, com a dignidade de aceitar um limite que a natureza lhe impôs. Mesmo submetendo-se à cesariana, a gestante deve fazer o seu plano de parto, desta forma conseguirá retomar a sua integridade emocional, pois, terá uma posição mais ativa no nascimento do seu filho.

Algumas sugestões para um plano de parto de uma cesariana:

1. Se plausível tecnicamente, aguardar o início do trabalho de parto e, se possível, permanecer algumas horas em trabalho de parto antes de realizar a cesariana.

2. Pedir para que fiquem na sala cirúrgica o menor número de pessoas e que estas façam silêncio, evitando assuntos impertinentes ao momento.

3. Se desejar, pode ser colocada uma música suave e em volume baixo, ou simplesmente os pais podem cantar para o seu bebê na sua chegada.

4. Durante a aplicação da anestesia o companheiro pode participar dando apoio físico e emocional à gestante. O pai fica de frente para a mãe apoiando os seus ombros para que o anestesista possa pressionar a coluna da gestante sem que ela perca o equilíbrio. Neste momento o casal pode olhar-se nos olhos numa atitude de cumplicidade. O pai pode pedir à gestante que relaxe e respire calmamente, como também deve sentir-se à vontade para expressar os seus sentimentos em relação à sua mulher.

5. Depois da anestesia o companheiro pode permanecer de mãos dadas com a sua mulher ou simplesmente ficar próximo dela.

6. Pedir ao anestesista que não prenda os braços da gestante durante a cesariana, mas é claro que a mulher terá que restringir os seus movimentos, pois, muitos locais não devem ser tocados durante a cirurgia para evitar infecções.

7. No momento do nascimento o foco de luz deve ser retirado do ventre materno e todas as luzes devem ser reduzidas para não ofuscar o bebê que sairá de um ambiente escuro.

8. Imediatamente após o nascimento a criança deve ser colocada sobre o ventre materno para sentir a pele da sua mãe e ali permanecer até o cordão parar de pulsar. Em alguns casos o sangramento materno pode impedir esta etapa.

9. Se o companheiro se sentir à vontade poderá cortar o cordão umbilical, tomando as devidas precauções que o médico lhe ensinará.

10. Após cortar o cordão, a criança pode ser colocada sobre o peito da sua mãe para que a mãe sinta a pele do seu bebê e o vínculo afetivo seja estabelecido. A criança pode permanecer aí até ao final da cirurgia.

11. Se possível realizar uma massagem suave no bebê no colo da mãe.

12. Não aspirar nem aplicar colírio rotineiramente no recém nascido.

13. Se a mãe estiver desconfortável com o bebê no seu peito, o companheiro poderá segurá-lo e realizar a massagem com o bebê dentro de uma banheira com água morna.

14. Pedir ao anestesista para que não administre nenhum sedativo na parturiente, assim ela ficará ativa e interagindo com o seu bebê.”

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Fotos: Emily Robinson Photography

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