Era tarde de um dia ensolarado. Ela sentia contrações leves e cólica. Era totalmente suportável.  Aos 21 anos, sem saber nada sobre trabalho de parto e um pouco assustada com o que viria, compartilhou as angústias com sua irmã mais velha. Por fim, resolveram ir ao hospital. Pegaram um ônibus e entre uma chacoalhada e outra, lá vinha mais uma contração.

Já no hospital, recebeu a notícia que tinha 2 dedos de dilatação e que ficaria internada. A irmã não poderia ficar. Ela, portanto, estava só. Foi colocada em uma sala com outras mulheres. Uma delas, já em trabalho de parto avançado, gritava, xingava e implorava por ajuda. É claro que ela ficou assustada, ainda não sentia tantas contrações e temia a evolução de seu trabalho de parto. Uma enfermeira entrou no quarto e mandou a mulher calar a boca ‘para não assustar’ as demais. Saiu rindo. Ao voltar, fez contato visual com ela, e viu que estava muito assustada, encolhida na maca. Falou com aspereza: “Venha aqui você. Vou te colocar em outro quarto longe dessas loucas que ficam gritando”. Sozinha novamente, dormiu. Acordou no início da noite com contrações ritmadas e fortes. Estava com sede e fome, mas temia abrir a porta. “Daqui a pouco alguém virá”- ela pensava. Ninguém apareceu. Ela delirava de dor, já na partolândia. Ninguém abriu a porta por quase 10 horas. Ela, ali esquecida, não sabia o que fazer. O bebê coroava e com suas últimas forças resolveu chamar alguém. Passava uma enfermeira, que rapidamente a colocou numa maca e a levou ao centro cirúrgico. Ainda deu tempo de fazer uma episiotomia. Ela pedia pra mudar de posição: deitada daquele jeito doía mais. O bebê nasceu, seguro pelos pés, numa sala gelada e foi separado dela por mais de 12 horas. Sem explicações: era o procedimento.

Essa poderia ter sido a sua, a minha, a nossa história. Parto ‘normal’ é assim hoje em dia: cheio de dor e de abandono. E, na verdade, essa é minha história também. Não era eu quem estava parindo. Eu era o bebê. E essa história aconteceu há 33 anos, com a minha mãe. Nasci de parto frank.

O termo ‘violência obstétrica’ é novo, mas o modus operandi, não.

Eu tenho 5 tias, irmãs da minha mãe. Esse círculo de mulheres poderosas, fortes me acompanha desde o nascimento. Nos encontros de família, invariavelmente surgia o assunto parto ou gravidez. As histórias? Como as de minha mãe. Curiosamente, todas elas foram tendo os filhos mais novos por cesariana. Meu irmão, por exemplo, 12 anos mais novo, nasceu de uma cesárea às 36 semanas de gestação. Era pra aproveitar e fazer laqueadura (proibido por lei!) e também porque… “pra quê sofrer tudo de novo?” – dizia minha mãe. Como eu era pré-adolescente, estava com ela no hospital, já que meu pai estava viajando. Eu a ajudei a sair da maca para ir ao banheiro e ela chorava de dor. Jamais vou me esquecer.

Eu cresci ouvindo que parto era horrível, que era nojento, que era terrível. Que parto normal era coisa de gente pobre que não podia pagar cesárea, que parto normal era como “cagar um tijolo impossível”, que acabava com a vagina.

Minha tia, quase 10 anos mais nova que minha mãe, teve “duas cesáreas per-fei-tas”, segundo ela mesma. E assim eu fui construindo na minha cabeça, desde a mais tenra idade, que parto era ruim e cesárea era óóóótima. Como eu não sabia quando teria filhos, e também não me interessava minimamente pelo assunto, não pensava nisso.

Minha irmã, 3 anos mais nova que eu, engravidou aos 18. Ela, como eu, exposta às experiências negativas das mulheres de nossa família, aliadas ao terrorismo médico – “olha, vou ter que usar o fórceps porque você é muito pequena” – fez também uma cesárea. Mesmo muito perto de todo esse universo, eu jamais havia ido atrás de informação. Normal era fazer cesárea. Imagina uma menina como ela passar pelo terror de um parto normal? Pra quê? Que bobeira! Assim, fora de trabalho de parto, meu sobrinho foi nascido.

Anos mais tarde, eu me mudei para a Irlanda. Lá vivi uma love story, que virou casamento, que virou dois filhos. rs

Então, me vi grávida em um país com uma taxa de cesáreas de 20%, e sem ter pra onde correr. Cesárea? Só necessária.

Liguei para minha mãe no Brasil que ficou muito mexida com o que eu contei: eu ia ser obrigada a ter um parto normal. Surgiram ideias mirabolantes: fazer uma vaquinha entre a família pra pagar o parto em Euros, ir pra Portugal, onde tinha médico brasileiro cesarista (hahaha!) e voltar para o Brasil – que não era mesmo a minha opção.

“OK, já que vou ter que passar por isso, quero saber como é aqui e do que se trata.’ – eu pensei. E lá fui entrar num grupo no finado Orkut – o Gravidez, Parto e Maternidade. Também fui aos encontros sobre parto do hospital onde eu teria meu filho. Para minha surpresa, o primeiro encontro foi sobre os riscos de uma cesariana, um vídeo REAL de cesárea e a importância de se estar ciente sobre os riscos. Choquei. Fiquei bege, azul. Como assim ninguém tinha me falado aquilo antes? Como assim só me falavam que cesárea era muuuuito melhor, muuuuuito mais segura, mais bonita, mais limpinha? Fui arrasada pra casa. Beleza, eu tinha acesso àquelas informações, meio que de forma forçada, mas e quem não tinha? E as minhas tias que achavam que era a melhor coisa do mundo fazer uma cirurgia por escolha, sem saber nada sobre aquilo?

trilhosMas agora eu tinha criado uma outra situação: eu estava com medo do parto normal e medo da cesárea. De nada adiantou eu saber aquilo sobre a cirurgia. Aos 4 meses, panicada de medo, um poço de hormônios, eu chorava dia sim outro também. Me arrependi de estar grávida. Que roubada! Desejei tanto uma varinha mágica, pra poder parir via pó de pirlimpimpim. Me senti naquela encruzilhada aqui ao lado.

Então eu assistia a uns vídeos toscos de parto normal no Youtube e me dava um pavor, uma vontade de sair gritando! Aos poucos, com a ajuda do grupo virtual, fui me abrindo, conhecendo um outro parto, diferente daquele que habitava meu imaginário. Um parto bacana, cheio de respeito. Pra isso eu precisava estar fortalecida e informada. O chamado ‘empoderamento’. E como é que a gente chega nisso, afinal? – eu ficava me perguntando. Sem mais nem menos, cheia de informação, ele chegou de mansinho. O tal do empoderamento. Ah, que lindo quando a gente descobre que é capaz, SIM!

Confesso que, sabendo que ia chegar e parir, que ninguém ia me forçar a uma cesárea, não busquei tanto quanto poderia e deveria. Meu parto foi normal, com intervenções que eu permiti e pedi. O parto que eu tive foi o necessário pra mim naquele momento. Foi ótimo, zero de laceração, bebê nunca ficou separado de mim. E eu virei a louca, a heroína, a pirada, a excêntrica, a coitada, a alternativa, a índia, a retrógrada – VAMOS INTERNAR PORQUE ESTÁ LOUCA! – da família.

Já na gravidez eu militava pelo parto normal, ajuda a espalhar as boas novas do parto com amor, cheio de respeito, que tantas não conheciam. Depois do parto, fiquei insuportável! rs

Eu, uma cesarista convicta, havia parido. Mas eu fui impelida a isso. Graças a Deus! Graças ao Cosmos! Porque eu não tive um parto contra a minha vontade, mas eu fui obrigada a me informar de verdade. Eu, uma pessoa tão esclarecida, me recusando a ver.

Que fique claro que sou absolutamente a favor de cesáreas necessárias e respeito a decisão das mulheres brasileiras, se elas decidirem por uma cirurgia. Meu ponto aqui é: você sabe realmente do que se trata? Não deixe de colocar suas opções na sua balança. Faça escolhas conscientes, congruentes com a sua vida. Informe-se, busque conhecimento! Se não souber por onde começar, me pergunta, gente! Me liga, me manda um telegrama!

Só sei que depois de tudo, ainda pari mais uma num parto totalmente natural, zero de intervenção, em 3 horas de trabalho de parto ativo. Ali minha vida mudava para sempre. Larguei tudo e fui ser doula. Agora eu ajudo mulheres em seu empoderamento, em suas viagens rumo a seus partos. Assisto mulheres renascendo. Escrevo sobre parto! Que reviravolta! Vida louca, vida-ah-ah, vida breve! <3

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