Hoje, participando de um dos inúmeros grupos de apoio no facebook, me deparei com uma moça que buscava informações sobre como cravar uma cesárea desnecessária pelo SUS. Ela dizia ter medo. Ao perguntá-la sobre qual era seu medo especificamente, descobri que ela queria a cirurgia para fugir da violência obstétrica, que reina dos hospitais da região em que moro.

Aí me lembrei desse texto do Dr. Braulio Zorzella, um obstetra humanista. Muitas vezes, muitas mesmo, as mulheres tem uma escolha bem difícil: entre uma cirurgia que elas não desejam e um parto recheado de intervenções sem necessidade. Já diz a Simone Diniz: “Chega de parto violento pra vender cesárea.”.

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Elas pedem AJUDA, não cesárea.
Por Braulio Zorzella

fc71089db8554afd0678f5cf01908beb” Ela chegou gritando e esperneando como se estivesse sendo torturada… A conheci hoje, no plantão de retaguarda da maternidade que tem 98% de cesáreas pelo SUS, restanto os 2% de PN dos dias que estou de plantão… Isso mesmo que ouviram, 98% de cesáreas pelo SUS! Ela com 23 anos, terceira gestação, 2 cesáreas anteriores, 38 semanas, bolsa rota e 5cm de dilatação, colo finíssimo, apresentação baixa.

A mãe chorando e as duas juntas pedindo “PELO AMOR DE DEUS DOUTOR, FAÇA UMA CESÁREA!!!”.

Sentei ao seu lado no pré-parto, apaguei as luzes, pedi pra enfermagem sair (nesse hospital elas não têm a mínima prática com Parto Normal). Entre as contrações ela acalmou-se, porém durante elas, virava bicho e não ouvia nada, se contorcendo e gritando que o médico do pré-natal falou que ela não podia ter parto normal de jeito nenhum pois no caso dela era impossível!

Perguntei se ela já quis algum dia ter Parto Normal e ela disse que sempre quis mas os médicos sempre falaram que ela não podia. No primeiro, bacia estreita, no segundo, não dilatou e agora pois já tinha 2 cesáreas. Insisti mais um pouco em tentar acalmá-la e explicar os possíveis benefícios do bebê nascer natural, mas foi em vão naquele momento. A enfermagem e a pediatra voltaram e me olhando com olhos de “oque você está esperando pra chamar o anestesista pra cesárea?”

Foi então que de caso pensado falei (em voz baixa PARA O BEBÊ NÃO OUVIR): “Liga pro anestesista e diga que teremos uma cesárea!”

Haiti-36394Percebi que contentei a todos nesse momento! A paciente acalmou-se, a mãe foi contar pro marido, a enfermagem começou a se movimentar e a pediatra foi preencher papéis. Vieram com lâmina pra tricotomia e bandeja de sonda. Olhei e disse: “Pode deixar que eu faço a tricotomia e a sondagem depois de anestesiar”.

Chegou o anestesista que não viria para uma analgesia de parto se eu chamasse, mas como eu disse que seria cesárea veio…  pedi então que fizesse uma dose menor na raqui mesmo, apenas para tirar a dor mas que NÃO SERIA CESÁREA! Todos se assustaram!!! “Como assim? Com 2 cesáreas anteriores?” Aquele olhar de “ele deve estar louco!”.

Anestesia feita, a dor passa, suficiente pra EU CONSEGUIR CONVERSAR COM ELA! Lamentável mas como NINGUÉM CONVERSOU ANTES COM ELA, nem no pré-natal e nem no hospital e só me reservaram os 48 do segundo tempo para eu conversar, o único jeito de ouvir foi anestesiando: “E agora, está bom pra vc assim? A dor melhorou? Seu problema está resolvido?…  Vamos resolver o do bebê agora? O bebê está super bem, e ME DISSE QUE ESTÁ QUERENDO MUITO NASCER DE PARTO NORMAL. Ele não sabe ainda que vai ser cesárea. Ele está na posição e quase saindo e vc tem a passagem ótima pra ele, vamos tentar? Ou se preferir ainda posso fazer a cesárea, pois não vou fazer nada contra a sua vontade”.

Ela me olhou, arregalou os olhos ao mesmo tempo que veio um puxo e começou a fazer força… Ela sorriu e percebeu que podia… Me olhou novamente e fez mais força e se empolgou! Na terceira força ele nasceu perfeito e com nota 10 da pediatra incrédula. Foi ao colo da mãe que o beijou muito dizendo: SEMPRE ME FALARAM QUE EU NÃO IRIA CONSEGUIR! Não acredito que consegui fazer isso!…

Caros cesaristas de plantão: ELAS PEDEM AJUDA E NÃO CESÁREA!!!”

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